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segunda-feira, 26 de junho de 2023

Informação correta é fundamental. Jornalista é imprescindível.

Jornalismo, Sempre 

Em 1984, fui a uma reunião da Comissão de Assessoria de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo por convite de Wilson Baroncelli, que trabalhava no Grupo Pão de Açúcar como eu. Passei a frequentar as reuniões das quartas à noite e  fiz amizades sólidas e queridas. E foi embalada por essa lembrança que li sobre o V Congresso dos Jornalistas Portugueses que acontecerá no próximo ano em Lisboa e terá a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Souza em cerimônia de abertura. 

Fui em busca de informações sobre o encontro, cujo tema é “Jornalismo, Sempre” e que irá debater o exercício da profissão em condições dignas, seus desafios e oportunidades de melhoria. A Comissão Organizadora tem na presidência o jornalista e professor de jornalismo Pedro Coelho, que trabalha na SIC (cuja TV tem parceria com a Rede Globo). Ela reúne mais de 50 jornalistas de diferentes gerações, plataformas e professores de jornalismo. Pedro e os integrantes do grupo de trabalho Proximidade têm viajado o país para ouvir as angústias dos jornalistas em encontros nas várias regiões do continente, Madeira e Açores.  


Pedro Coelho no périplo em Açores

Então, nesse périplo, no sábado de 3 de junho no Porto, mais de 12 jornalistas dedicaram a tarde quente para se reunirem na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. E lá estava eu, para conhecer os jornalistas em uma casa que respira história. Afinal, são 141 anos reunindo centenas de escritores, jornalistas, atores e artistas plásticos. Ainda que o nome menciona homens de letras, apenas 16 anos após a sua fundação, em 1901, surge a primeira mulher, Clorinda de Macedo, professora e poetisa (ainda volto ao tema no futuro).

Edifício que abriga a
Associação dos Jornalistas
e Homens de Letras do Porto 


Foi curioso ouvir diferentes relatos que se assemelham ao momento vivido no Brasil. Será que o papel vai acabar? Será que as redações dos veículos, como conhecemos, estão fadadas à falência? E a tecnologia que traz consigo a Inteligência Artificial irá ocupar o lugar de pessoas que exercem o árduo ofício de questionar em busca da informação correta?  

Em certo momento, uma jovem dá um depoimento comovente, ao falar das dificuldades em ser jornalista e lutar por melhores condições profissionais. “Muitos colegas meus perguntam por que eu ainda frequento os encontros para debater os rumos do jornalismo”. 

Pedro Coelho então é enfático, respondendo que é preciso continuar a batalha e não desistir. Salários baixos, precariedade no exercício da profissão, legislação a ser atualizada. Esses são alguns dos desafios enfrentados por muitos jornalistas que atuam em veículos como o Diário de Notícias, criado em 1864, o mais antigo veículo a funcionar e que corre o risco de fechar (esperemos que isso não ocorra). 

Hoje em dia (e já há um bom tempo) esse é o panorama vivido por profissionais e veículos de imprensa em muitos países.

Debater, questionar e encontrar saídas para o jornalismo


Vale dizer que comprar jornais impressos aqui é um hábito que logo a gente adquire – como é bom ver pessoas consumindo notícias em papel! E tem ainda veículos exclusivamente criados online e plataformas de notícias, além das tevês e rádios. Escuto a M80 que traz boa música quando dirijo por aqui.

A escrita nos jornais é atraente, a crítica é contumaz e inteligente. Há semanários (O Gaiense retrata a vida em Vila Nova de Gaia onde moro). Há os especializados como o quinzenal Jornal de Letras que traz notícias do mundo da literatura e artes. 

Alguns jornais e revistas de Portugal

Tenho já meus preferidos. Assinei o Público (que tem uma parceria com a Folha de S.Paulo) e nos finais de semana, compro o Expresso com sua revista, que circula às sextas e cujo exemplar é guardado para mim por Cristina, da lojinha que vende revistas, bilhetes da Loteria e é também  posto do CTT (a estatal Correios e Telecomunicações de Portugal) no bairro. Semanalmente, quando chego, Cristina abre um sorriso e diz:

- Boa tarde, dona Lena, aqui está o Expresso. Ah, e serão lançadas biografias nas próximas semanas  com a revista Sábado (já pedi para guardar a de Winston Churchill!).  

A lojinha e posto CTT onde compro 
revistas e jornais  e ainda 
 envio cartões e cartas pelo correio

Em Portugal, segundo dados da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social  - em dezembro de 2022 havia 1.710 publicações periódicas, 301 empresas jornalísticas e 181 serviços de programas distribuídos exclusivamente pela internet. 

A comunicação será ainda mais abordada em futuro post.  Afinal, esse é o mundo a que pertenço profissionalmente, que vivi no Brasil e que estou a conhecer em terras portuguesas.

Serviço:

V Congresso dos Jornalistas Portugueses: Jornalismo, Sempre.

Local:  Cinema São Jorge, em Lisboa

Data: 18 a 21 de janeiro de 2024

Painéis: Ética e Condições de Trabalho, Acesso à Profissão, Memória (comemorações dos 50 anos do 25 de Abril), Jornalismo de Proximidade, Financiamento do Jornalismo e Novas Fronteiras do Jornalismo. Haverá ainda mesas redondas (nomeadas por aqui como pontos de fuga), diversas dinâmicas, masterclasses. 

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Pets são da família

 Pets são da família 

Quando a gente muda, seguem conosco gatinhos, cachorros, passarinhos. Afinal, pets fazem parte da família. No meu caso, por vários motivos, tomei a difícil decisão de buscar outro lar para Merlin e Aquiles, gatos que me acompanharam nos últimos cinco anos e meio. Felizmente, Lurdeca, a amiga que doou ambos, os recebeu de volta. Somente depois que eles partiram, iniciei a preparação para vir para cá. Animais são sensíveis e percebem qualquer movimento para mudança. 

Talvez seja por sentir falta dos gatinhos ou de Spock, Golden Retriever de minha irmã Vera e integrante da família e que nos deixou em fevereiro do ano passado aos nove anos,  tenho observado com mais atenção os pets e sua relação com as pessoas.

Há aquelas abnegadas, como a vizinha de nosso andar, a dona Maria Augusta. Além dos dois gatinhos que tem, ainda cuida de mais sete que circulam pela rua. São alimentados duas vezes ao dia com comida feita por ela, que ainda cuida das casinhas protegidas contra chuva e frio abrigadas em um espaço verde - divisa com muros da  Escola Básica do Meiral  e em frente ao condomínio onde moramos. 


Dona Augusta 
e os gatinhos



Este está velhinho e durante o dia fica
na porta do condomínio

As casinhas arrumadas para os gatinhos. 

A Câmara de Vila Nova de Gaia (como chama-se a prefeitura aqui em Portugal) tem site com fotos e descritivo de cães e gatos para doação. E é preciso muito esforço, pois todo o ano são abandonados cerca de 10 mil animais. O abandono é crime e pode ser punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias. 

PATA, a plataforma de adoção
faz campanhas frequentes

Segundo matéria do site PIT – Pets in Town, abrigado na plataforma iOL, atualmente, o país tem cerca de 2,890 milhões de cães e 512 mil felinos. E como são obtidos esses números? Simples. O registro é obrigatório por lei para cães, gatos e furões nascidos em Portugal ou residentes no país há mais de 120 dias. No caso de cães, há oito tipos de categorias e seus donos precisam apresentar boletim sanitário, vacina de raiva e microchip instalado. Ao serem registrados no SIAC – Sistema de Informação de Animais de Companhia, é possível acompanhar a evolução de pets no país. 

Entre as categorias de cães, há os de serviço. Clara e Cristal, duas belas Golden Retriever brancas são cães de serviço e chamam a atenção por onde passam. Eu as conheci em um sábado com sol escaldante quando entrava no mercado Bolhão, no Porto (falarei mais sobre o lugar em futuro post).

Elas estavam com seus uniformes sinalizando serem cães de serviço e educadamente deitadas com suas guias seguras pelo dono, Ian Przewodowzki. Ian é brasileiro, neto de poloneses e morava no Rio de Janeiro antes de vir para o Porto – uma feliz coincidência comigo, brasileira,  neta de poloneses e com um caso de amor com o Rio desde que ali morei. 

Clara e Cristal chamam 
atenção por onde andam

Ian explica que tem uma deficiência auditiva e Clara é sua guia, enquanto Cristal auxilia como apoio emocional para a ansiedade de sua filha Ana Beatriz, de 25 anos. Comenta que eu gostaria de conhecer sua mulher, Ana Paula, também brasileira. Mais que depressa, a filha caçula Maria Antônia, de 8 anos, se oferece para chamar a mãe. Ana Paula chega e começamos a conversar descontraidamente. Conta que Clara e Cristal têm três anos e meio e que nasceram em Viseu, município do distrito do mesmo nome, onde mora seu pai que é português. Em seguida, ficaram três meses em treinamento nos Estados Unidos e depois foram residir com a família toda no Recreio dos Bandeirantes, bairro do Rio de Janeiro. O casal voltou com a filha caçula para Portugal em outubro de 2021. 

Ele ressalta que a lei portuguesa faculta ao dono de estabelecimento permitir ou não a entrada de cães de serviço, e muitos não permitem nem entrada nem permanência. Além disso, é proibida a permanência de cães de qualquer categoria em parques. Preconceito? Pode ser. Isso talvez explique o fato de tantos cães passearem com seus responsáveis nos passadiços próximos das praias. A convivência amigável com pets talvez ainda demore a mudar nessas terras portuguesas que estão recebendo muitos brasileiros e que chegam com seus cães e gatos. 

Na hora da foto, Clara sentiu o aroma dos petiscos frescos comprados ali por Ana Paula e não se sentava de jeito algum! Essa atitude lembrou-me o Spock tão querido nos momentos em que dava a patinha ao ouvir a gente falar: sit!... Após dicas sobre canis, e eu ter o telefone e e-mail anotados, nos despedimos, desejando mutuamente bons passeios. 

Então, quem sabe no próximo ano não acolheremos um pet?    

#pets #gaia #cãesdeserviço #pata #gatos #mudança 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

É dia da criança! Você já brincou hoje?

Ensino levado a sério: esse é o passaporte para o futuro

É dia da criança! Você já brincou hoje?

Desde que aqui cheguei, caminho diariamente pelas ruas da freguesia de Canidelo, que reúne vários bairros. É um jeito ótimo de conhecer os arredores e me familiarizar com a vida por aqui. Hoje (1/6), ao caminhar na rua do Meiral, rumo à rua Bélgica (que merece um texto futuro), passei pela escola básica do Meiral decorada com balões, saudando o dia da criança, celebrado aqui em 1º de junho. Uma tenda chamou a atenção, expondo à venda algumas peças. É da APEM - Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola do Meiral.




Ensino de qualidade deve ser prioridade em qualquer país. Em Portugal, esse é assunto sério para pais, professores e alunos – os clientes finais dessa cadeia produtiva, se assim podemos chamar. O ensino é dado em escolas básicas (nosso 1ºgrau) e em escolas secundárias – essas equivalentes ao ensino médio brasileiro. O sistema de ensino de Portugal  tem um índice de alfabetização (2021) de 96,9% e na educação, ocupa o 41º lugar no mundo, com cerca de 1,614 milhão de estudantes.  

"Aqui na escola do Meiral, temos 12 turmas, sendo 8 do ensino básico (do 1º ao 4º ano) e 4 no jardim da infância (dos três aos seis anos)", explica Eduardo Gomes, vice-presidente da APEM". Mensalmente encontram-se com os pais de alunos para levantar temas de interesse. Depois se reúnem com os docentes e o coordenador da escola e depois mandam o resultado do encontro no grupo do WhatsApp. 

E a conversa segue animada quando falamos das diferenças de significados de palavras nos dois países. No Brasil, por exemplo, costumamos comprar durex em papelarias. Não corra esse risco por aqui. Durex é preservativo!

Alexandre Silva (no centro da foto abaixo) é o presidente da Associação e termina seu mandato no final desse ano letivo. Inspetor do Ministério da Economia e com uma filha de seis anos na escola, explica que a venda dos itens ali expostos ajuda a criarem experiências para as crianças, como hoje – no dia da criança, em que decoraram a escola e colocaram brinquedos de inflar no pátio. “Na Associação, buscamos criar experiências para as crianças. Se não fizéssemos isso, por exemplo, o dia da Criança ia passar em branco”. 



Venda dos itens com logo da Apem ajudam a promover experiências 



Ele conta que todas as escolas em Portugal são inclusivas e os alunos com dificuldades têm terapia ocupacional e terapia da fala, conforme o caso. Nessa escola – assim como algumas de Portugal, além de portugueses, há alunos vindos da Inglaterra, da Ucrânia, do Brasil e de outros países. Alexandre destaca que os brasileiros mostram muita habilidade para diferentes idiomas e se adaptarem. Isso é verdade. 

Minhas sobrinhas-netas chegaram com os pais há três anos e meio. Os primeiros tempos na escola não foram fáceis. Precisavam entender o idioma falado e escrito e assimilar o sistema. Hoje, explicam de forma clara como tudo funciona e opinam sobre mudanças no ano letivo, além de terem colegas que se tornaram amigos. Em setembro, Marina irá para o 9º ano – o último do ensino básico – e sua irmã Catarina ingressará no 10º ano, o primeiro do ensino secundário – equivalente ao nosso 2º grau – e que é dividido em cursos científicos ou humanísticos.  Qualquer semelhança com os antigos Cientifico ou Clássico que tínhamos no Brasil é pura verdade! 

Agora, fica a curiosidade em saber como a Escola do Meiral vai celebrar o Halloween e o magusto, festa popular que acontece em algumas datas específicas e que é comemorada com grupos de amigos e famílias reunidos em volta de uma fogueira onde são assadas castanhas ou bolotas (frutos de carvalhos, existentes em sua maioria no norte e no centro do país), com direito a cantorias e conversas. Eu já dei uma pequena contribuição, comprando uma caneca térmica com a logomarca da APEM!


#educação #apem #ensinoemPortugal #ensinobásico #Canidelo #Halloween #magusto








         




quinta-feira, 25 de maio de 2023

É primavera, quase verão

 

Já economizou água e fez sua hortinha?

Semana passada, minha sobrinha-neta mais velha Luisa estava em casa e eu, toda entusiasmada, a convidei para a gente ver o pôr-do-sol na praia. Eram 6 horas da tarde e ela respondeu calmamente: “Tia Lena, só se a gente for as 9 horas da noite...”

Pois é. Leva-se um tempo para se acostumar com o horário de primavera-verão em que o sol desaparece cada dia mais tarde. Já tinha vivenciado essa sensação em uma viagem a trabalho para a Suécia, mas é completamente diferente quando você reside no velho continente. Pode até ser impressão de moradora ‘de primeira viagem’, mas o sol parece cada dia mais quente e as plantas – assim como os humanos e animais - reclamam por mais água. 

Nesse ano, devido à atual seca, consumir água exige mais cuidado dos governos e dos cidadãos. Uma das notícias de ontem (25/05) é que Portugal não ‘autoriza mais culturas permanentes de olival, abacate e frutos vermelhos’ em Alentejo e em Algarve, segundo matéria do jornalista Carlos Dias no jornal Público.  A medida tomada pelo Ministério de Agricultura e Alimentação irá vigorar enquanto se mantiver o ciclo de seca severa e extrema, ainda que a ministra tenha destacado o papel dessas culturas na ‘balança de pagamentos’. Ao mesmo tempo, haverá incentivo para culturas menos consumidoras de água. A EDIA, empresa de desenvolvimento e infraestruturas do Alqueva, lançou o programa Alqueva Sustentável para “responder aos desafios enfrentados pelos agricultores da região”. 


Alqueva é um projeto conceituado para fins múltiplos situado no Alentejo, sul do país, segundo site da EDIA. Não diz muito, mas ali está a barragem de Alqueva, construída no rio Guadiana, e que lidera um sistema integrado por 69 barragens e reservatórios. A represa de Alqueva, segundo site, é a maior reserva estratégica de água da Europa com capacidade total de 4150 milhões de metros cúbicos. As infraestruturas ali presentes permitem irrigar uma área de 130 mil hectares. E aqui vale uma lição aprendida nesses meses: não se compara nem áreas nem países - como Brasil e Portugal - algo muito feito por nós que aqui estão como emigrantes. Cada país tem seus encantos, problemas e soluções. Afinal, só a soja no Brasil, segundo informação da Datagro, o total semeado foi revisto para 44,22 milhões de hectares, o que representa alta de 4,9% versus a safra 2021/2022.

Números, discursos e intenções à parte, é importante destacar a preocupação governamental com a agricultura assim como de organismos, empresas e iniciativas - tudo criado para apoiar os agricultores. Afinal, a agricultura contribuiu e muito para o crescimento do país que atingiu 6,7% em 2022, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de Portugal.

Deixando os números de lado, vale dizer que nessa estação mais quente, as pessoas se animam a ter mais vasos de flores em casa, a renovar seus vasos de plantas ou a iniciar pequenas hortas. E há algo facilmente notado quando se caminha diariamente no bairro: as pessoas aproveitam cantinhos em suas casas para cultivar folhagens, tomates, e ainda pequenas árvores de limão amarelo ou vasos de flores. 

Então, animada pelo clima primaveril, fui comprar terra, vasos e sementes na Flor do Norte, mega loja presente há 35 anos no bairro Arcozelo (onde mora minha sobrinha e família). Lição aprendida na primeira compra: aqui lojas de plantas vendem plantas. Então, se precisar de pazinhas, pequenos rastelos e outros utensílios necessários, melhor procurar nas grandes lojas da China (onde se encontra de tudo um pouco com preços convidativos para comprar) ou em grandes supermercados (onde, nessa época, vendem esses artigos).


Com a varanda organizada – terra, floreiras, sementes, ferramentas - pedi ajuda via WhatsApp para Dora e Carlinhos, amigos de longa data e que têm a Mandrágora Arte Ornamental no Embú das Artes. São experts e já me orientavam no Brasil com outros tipos de plantas.  Então, Descubro, então, para minha surpresa, que é preciso fazer buraquinhos distantes três centímetros na floreira para plantio de salsinha. 

Sabiam que o alecrim é um antissocial – gosta de pouca água e não se dá com a pequenina salsinha. Tudo plantado na primeira floreira, penso que é preciso apenas esperar alguns dias para elas germinarem e crescerem – assim como as plantas do meu vizinho debaixo que tem um belo espaço por morar no rés-de-chão – como chamam o andar térreo - e colhe couves e outras folhas simplesmente enormes.  

Aí aprendo outra lição, dada pela sobrinha Paola que mora em Milão há mais de 15 anos: dificilmente, as salsinhas de sementes plantadas nas floreiras terão o mesmo tamanho daquelas em vasinhos que a gente compra nos supermercados. Não desisto, mas, por via das dúvidas, vou de novo para a Flor do Norte e compro tomates e manjericão-de-folha larga, como é conhecido o manjericão, já plantados, e transfiro para uma segunda floreira.  Afinal, as pequeninas salsinhas podem se entusiasmar com a presença dos tomateiros e ganharem envergadura!


De volta à escassez de água nesses tempos mais secos, percebe-se a consciência dos cidadãos no uso da água. As pessoas não lavam calçadas – um hábito que no Brasil eu já considerava desperdício.  Carros? Levam em serviços que fornecem água e aspirador e onde elas mesmas limpam seus veículos.  Como esse é um hábito que não tenciono adquirir, descobri um lava jato automático perto de casa bem mais barato que os lava jatos dos shoppings. E aí ganho mais uma  lição: Por que pagar mais um euro pela cera, se o trabalho de encerar o carro será meu, logo após o carro receber um jato da dita cuja? A dica foi dada por um brasileiro que, ao perceber que eu tentava entender como a máquina funcionava, veio ao meu auxílio. Pedindo licença por se intrometer, me orientou a usar a máquina e ainda falou sobre o melhor custo-benefício de lavagem na tabela de preços. Cinco minutos depois, foi a minha vez de orientar um português que ali chegava para lavar seu carro, um belo Alfa Romeo.


Então, sempre é tempo de poupar água, de aprender o seu melhor uso e regar com cuidado as sementes plantadas para, com satisfação, pegar um pouco de manjericão para a salada do almoço ou do jantar – enquanto se aguarda o tomate tomar uma cor e ficar vermelhinho.

#Escassez de água #Alqueva #hortacaseira #lavarápido #alentejo 


quarta-feira, 10 de maio de 2023

Primeira etapa cumprida

Autorização de residência, a senha 
para sentir-se em casa

5 de maio às 11h30. Esse dia ficou em modo alerta na minha agenda desde dezembro do ano passado, quando recebi o passaporte com o visto concedido pelo governo português. Dia da entrevista no CNMAI - Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes. Assim como eu, pelo menos duas centenas de pessoas ao longo daquela sexta-feira ensolarada na cidade do Porto dirigiram-se ao Edifício Capitolio. Na recepção, a funcionária pública localiza meu nome, dá a senha D-34 e orienta: "olhe no segundo quadradinho no ecrã (tela em Portugal). Agora, está no D24). 


Na sala, quatro fileiras de cadeiras ocupadas por pessoas de diferentes origens acomodando cerca de 30 pessoas. Muitas vindas das ex-colônias portuguesas na África e que integram a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A CPLP, criada  há 27 anos em Lisboa, é constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste e visa uma cooperação político diplomática e defesa da língua portuguesa. 

Mulheres negras jovens, alguns rapazes com turbante - e todos olhando seus celulares. Enquanto uns trocam mensagens por whats, outros ligam e conversam em voz baixa em seus idiomas. Após 45 minutos, a senha H9 é chamada. Como não responde, a funcionária da recepção sai do prédio à  procura do dono da mesma. Sem êxito. Muitos aguardam do lado de fora e aproveitam para trocar informações, sempre úteis para quem está se adaptando a um novo lugar. Na sala de espera,  o ambiente é de silêncio - seguindo orientação da placa em uma das paredes. Ao observar pessoas de diferentes origens, fico refletindo sobre o quanto muitos de nós, brasileiros, desconhecemos nossa história, Durante os anos do primeiro e segundo grau, pouco se aprofunda sobre o conhecimento de nossas origens. E quando ingressamos na universidade, conforme as carreiras escolhidas, deixamos de lado o passado, vivemos o presente e projetamos constantemente o futuro. 

E é para ter um futuro melhor, com novas perspectivas de vida para si ou para a família, que muitos migram para países em que não dominam a cultura nem o idioma. Mesmo falando português, estamos em outra casa, com outros costumes e onde somos convidados. 



Após uma hora e meia, chega minha vez. Vou à sala das senhas D-H. Ali, há cerca de 20 mesas com cadeiras para receber os entrevistados. Ao lado de cada mesa, um scanner serve para que os documentos entregues sejam arquivados digitalmente e devolvidos em seguida. Sou atendida pela jovem funcionária Valéria.  Ela comenta que o sistema está um pouco lento: "Deve ser porque é sexta-feira". Conversamos sobre tendências de as empresas diminuírem ou eliminarem  esse dia de trabalho na semana e ela sorri: "Ah, seria muito bom se isso acontecesse!".  Após verificar tudo, fazer algumas perguntas e receber a ficha ali preenchida, fazer foto digital, a biometria e assinatura digital, Valéria explica que receberei pelo correio a autorização de residência. O pagamento da taxa é feito em outra mesa e dado o recibo.

Alívio. Estou mais tranquila. Eu e minha irmã, que me acompanhou para dar fundamental apoio, saímos. O sol continua forte em plena primavera. Agora é retornar para Canidelo, em Vila Nova de Gaia. Nos próximos passos dessa jornada, estão as providências para obter o número definitivo do SNS - Sistema Nacional de Saúde, e a carteira de condução portuguesa.   

Ao dirigir para casa, fico lembrando dos meses de preparação, dos muitos documentos providenciados, das  orientações da advogada da empresa contratada para orientar o processo, do envio pelo correio de tantos papeis em um envelope enorme e, claro, das várias taxas pagas até a chegada do passaporte com o visto e o agendamento da entrevista e sorrio para mim mesma. 

Agora sim, me sinto muito mais em casa. Então, é hora de conhecer melhor cada canto desse país que tem se destacado no cenário europeu ao receber migrantes e, especialmente, nesse último ano e meio, tem abrigado milhares de ucranianos. Mas essa é outra história que logo, logo, compartilharei. 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar - o mundo dos supermercados

Para quem chega em Portugal, a variedade de supermercados encanta. Há lojas de supermercados franceses, alemães, espanhóis, além de duas redes portuguesas. A gama de produtos pode não ser tanta, mas os preços – especialmente de itens nas ofertas semanais – fazem a gente se sentir em um paraíso. Logo a gente aprende a consumir o que é da estação pois é mais barato. Agora, é época de frutos vermelhos e cítricos. Bananas chegam de Açores ou do Brasil, que também envia mamão formosa – um luxo que a gente aprende a comprar só metade e desfrutar no final de semana pois é bem caro. 

Carrinho lotado de frutas, verduras e de ofertas, com base na lista do que estava faltando em casa, é a hora do caixa. Além dos descontos semanais, há ainda os pontos dados pelo cartão do supermercado. Em um deles, é possível trocar esses pontos por euros em uma rede de combustíveis. 

No checkout, está Daniel Fernando Arfaarma, brasileiro e  residente em Vila Nova de Gaia há três anos. Começamos a colocar os produtos para serem pesados e precificados – em alguns supermercados isso é feito no momento do pagamento e, em outros, o cliente pesa fruta ou verdura na máquina no setor, tira a etiqueta e cola no saquinho. Então, ele abre um sorriso e diz: “que saudade desse sotaque!” 

E a conversa segue animada. Nascido e criado em Santos, fala sobre as mudanças da sua vida e conta como é trabalhar como caixa no Mercadona, uma rede espanhola que tem seus escritórios em Portugal localizados em Vila Nova de Gaia.  Explica os benefícios, o respeito dado aos funcionários e outras diferenças que observou em relação ao Brasil. Saudades? Claro que sente. Quando voltou para visitar a família e pensou em retornar à cidade natal, lembrou logo de sua vida aqui com mulher e filha e manteve a decisão. “Aqui, trabalhamos, mas também saímos para nos divertir, para passear e conhecer outros lugares. Aqui a gente vive, lá se sobrevive”. 



Em 2022, quem liderou o ranking dos supermercados foi o Continente, segundo estudo Kantar analisado em matéria de Ana Gaboleiro, a coordenadora editorial digital do site Imagens de Marca.  Mercadona ganha espaço entre os supermercados que mais vendem. Segundo a matéria, “o Lidl (supermercado alemão) é o grande vencedor de 2022". 

No outro lado da questão, há um processo da Autoridade da Concorrência (AdC) que, em 26 de abril, aplicou multas no valor total de 16,9 milhões de euros a Auchan, Modelo Continente, Pingo Doce e o fornecedor comum às três companhias, a JNTL Consumer Health, especializada em produtos de beleza, cosmética e higiene pessoal, alegando participação em esquema de fixação de preços. A questão está sendo examinada ainda pelo Tribunal Constitucional da União Europeia que vê traços de inconstitucionalidade nos trâmites do processo, ainda que a lei permita. 

Daniel termina o atendimento com um sorriso no rosto – algo que temos encontrado nos que prestam serviços de supermercados e de alimentação, nas áreas de ‘restauração’, como é chamado o setor de restaurantes nos centros comerciais, que para nós são os shopping centers. As diferenças no português luso e no brasileiro existem e, aos poucos, quem para cá vem morar, aprende palavras novas ou outros  significados – mas isso já é outra história.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Saúde e bom atendimento público são fundamentais


A contínua dor nas costas indicava a necessidade de auxílio médico. Ainda sem o ‘utente’ – o número de usuário do Sistema Nacional de Saúde – a solução foi ligar para o SNS 24 horas para orientação. Após explicar que era brasileira e, por acordo entre países, tinha direito ao atendimento primário, respondi uma série de perguntas – que me lembrou o atendimento médico online nos tempos de Covid-19. 

No fim, a funcionária pública orientou a procurar o determinado centro de saúde das 20h às 23 horas, que ficava na região norte de Vila Nova de Gaia – quando poderia ser atendida por não ter o utente e não ser um atendimento emergencial.  Em seguida, recebi por mensagem no celular a confirmação do atendimento e o endereço e horário para a consulta. 

De noite, lá fui eu dirigindo nas estradas para Vilar do Andorinho – você se acostuma a considerar as estradas como avenidas de seu bairro. 

Ao chegar, entrou em ação a simpatia e descontração brasileira para ajudar no relacionamento com as pessoas. Nem sempre a recíproca existe pois percebe-se que o português é direto e objetivo – o que não quer dizer que seja ríspido. É apenas um jeito diferente do nosso. Após explicar a situação, as duas funcionárias de plantão não só me orientaram para o atendimento médico como fizeram meu cadastramento no sistema nacional e passei a ter um número provisório de utente (agora posso até fazer um seguro-saúde com valor de 4 euros ao mês). O utente definitivo será obtido depois que eu tiver o título de residência por dois anos – a ser concedido após entrevista a acontecer em breve.

Na espera pela consulta, jovens com bebês, senhoras idosas acompanhados por filhos, casais de diferentes idades. Cada um aguardando pacientemente para entrar em um dos nove consultórios médicos. Na minha vez, fui atendida pela dra. Maria, uma médica que aparentava mais de 65 anos, cuja especialidade era medicina geral e familiar. Após perguntas e exames, prescreveu os medicamentos sendo que um deles foi ministrado por injeção no ambulatório, logo após a consulta. Na saída, a funcionária administrativa informou que o boleto da taxa pertinente ao serviço seria encaminhado para minha casa para pagamento posterior.

Comparar com o Brasil é inevitável. Há o SUS – que acredito ser um dos melhores sistemas de saúde, mas subdimensionado para a população brasileira, fazendo com que a espera para exames e procedimentos médicos como cirurgias eletivas demore meses. Por outro lado, é grande a diversidade de planos de saúde – que muitas vezes se aproximam das esperas habituais do SUS. Há ainda alguns planos que foram concebidos para atender pessoas sêniores (me recuso a chamar melhor idade pois acredito que a melhor idade é aquela que envolve o estado de espírito da pessoa – há jovens que nasceram velhos e setentões que gostam da vida com maestria). 

No Brasil, eu tinha um plano de saúde sênior e a demora em atendimento ambulatorial em hospitais chegava a ser de quatro horas nos finais de semana ou feriados. Uma das vantagens do SNS em Portugal é a triagem telefônica. Se o  atendimento não é emergencial, o SNS 24 orienta os cidadãos conforme a avaliação dos sintomas descritos. Caso já tenha médico de família, tudo começa com o atendimento feito por ele em um centro social de saúde. Exames só são solicitados em caso de real necessidade para fechar um diagnóstico que não se consegue com o atendimento primário. 

Há falta de médicos de família e essa é uma pauta constante na mídia. Caso a situação da pessoa seja grave ou com risco de vida, ao ligar para o número 112, recebe a orientação dos funcionários do INEM – Instituto Nacional de Emergência Médica – que acompanham desde o local  da ocorrência até a unidade de saúde. Temos esse serviço semelhante no Brasil, mas está tudo concentrado no SUS, nas prefeituras e estados – o que gera sobrecarga do sistema. As situações são semelhantes e me fazem perguntar: será que os gestores dos dois sistemas já trocaram suas experiências para que cidadãos no Brasil e em Portugal possam ser beneficiados sempre com o melhor atendimento?