Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Canidelo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Canidelo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A casa das sete meninas



Miúdas aprendem o trato com a beleza

Cuidar da beleza faz muito bem para si!

- Fotos? Mas se eu soubesse, tinha ido ao cabelereiro! 

E com essa risada gostosa, começou a boa e descontraída conversa com Carminda dos Anjos Teixeira Pereira, 63 anos, dona do salão Carminda, pertinho de casa no Canidelo. .

Vale registrar que logo que aqui cheguei, há quase seis meses (o tempo voa!), procurei um lugar onde me sentisse tão bem como o salão La Femme, da Gaby e gerenciado pela Tânia em frente ao condomínio em que eu morava na Vila Leopoldina, em São Paulo.

Finalmente, depois de três meses aqui e muito observar nas caminhadas do bairro, entrei na casa azul, muito 'fixe' na rua do Meiral, 35. (onde, já sabem, tem a confeitaria, a papelaria, a lojinha de vinhos e que vende algumas frutas - tudo em frente à escola do Meiral onde os miúdos estão a brincar na colônia de férias. Tudo a caminho da Rua Bélgica). Depois de subir dez degraus, está um amplo e claro salão com várias salas de extremo bom gosto, equipamentos novos e espaços cuidadosamente distribuídos. Há um espaço apenas para a manicure, que tem sua mesa, que observo ser tão diferente do Brasil que sempre abominei aquelas cadeirinhas pequenas e as profissionais curvas).  

Espaço com música, silêncio, algumas conversas em tom baixo. Tudo feito com calma. Profissionais com foco no que estão a fazer. No final do pavimento, há mais salas - para pedicure, massagens, tratamentos de estética. 

Carminda, 65 anos, nasceu em Mirandela, no distrito de Bragança. Aprendeu os primeiros princípios sobre os cuidados com cabelos de 12 aos 14 anos. Depois conclui os estudos e exerceu a função de escriturária até os 27 anos em empresas publicitárias (ah, está explicado o bom gosto pelo ambiente e o foco em agradar as consumidoras!).  Depois do curso profissional na área da beleza, abriu seu primeiro salão em 1988. E isso foi só o começo.. 

Sou uma feminista suave e tenho a convicção que as mulheres são por natureza batalhadoras e não desistem logo. Carminda não foge à regra. Chegou a ter três salões ao mesmo tempo, sempre em Canidelo. Hoje, com ela, são sete profissionais: Elsa, Fátima, Fernanda, Liliana, Helena, Andrea.  A garra feminina que foi o foco do romance de Letícia Wierzchowski em A Casa das Sete Mulheres e depois adaptada como mini-série da TV Globo, está ali presente.

As meninas na abertura do novo espaço 

Mãe de um casal e avó de duas meninas e dois meninos, Carminda conta com a filha Elsa à frente dos tratamentos estéticos (vou fazer um deles para dar um impulso na dieta que estou seguindo - afinal, ainda é verão!). Ali o tratamento estético é assunto prá lá de sério. Apenas um dos aparelhos, diz Carminda, custou 40 mil euros.

Conversamos sobre os tempos pós pandêmicos e ela observa que as pessoas de forma geral ainda estão tensas e preocupadas. "Antes da Covid-19, as mulheres vinham mais ao salão, quase que semanalmente". E ela sabe o que está dizendo, afinal atende várias gerações de clientes - da avó à neta. 

Para quem está pensando em empreender por aqui e abrir seu salão de beleza, ela ressalta que é importante procurar uma zona sem tanta concorrência e sempre buscar oferecer diferenciais.  Segundo o INE - Instituto Nacional de Estatística, há mais de 38 mil salões de cabelereiro e institutos de beleza em Portugal e que empregam mais de 50 mil profissionais.

E o que esse trabalho traz para si ? (aqui usa-se o si ao invés de você). 

Carminda abre um sorriso:

- O trabalho é prazeroso!  É muito bom ver a transformação da cliente, o ar feliz que tem ao olhar no espelho no final de um corte, de madeixas, de uma coloração.  A gente não precisa perguntar se ela gostou: a resposta está ali!



Carminda em seu amplo salão 


Na profissão, como na vida, é necessário seguir princípios e valores. Carminda chega a perder uma cliente que insista em determinado tratamento químico quando ela, com sua experiência e conhecimento técnico, sabe não ser o mais adequado: "Essa é minha forma de pensar e agir. Lidamos com produtos químicos e temos que ter consciência". 

Eu testemunhei isso, pois antes de fazer as madeixas, foi feito um teste e só depois no dia seguinte é que a profissional Fernanda conduziu o tratamento. E, ao olhar no espelho, foi muito bom reconhecer aquela mulher que lá na distante São Paulo, saía feliz depois de horas no salão!! Sensação de estar em casa!


Que tal o novo look?

#Canidelo #beleza #salão #Carminda #Portugal #cabelos

domingo, 9 de julho de 2023

Ainda que eu falasse a linguagem dos homens e dos anjos

Canidelo, cantinho que se torna querido


Nos primeiros dias em Portugal, ainda em fevereiro, iniciei minhas caminhadas pela freguesia de Canidelo (no Brasil, é bairro), e encontrei a Igreja de Santo André de Canidelo. Então, criei um hábito. Sempre que vou buscar o jornal Expresso no posto da CTT às sextas ou aos domingos, costumo dar uma paradinha na igreja que tanto me lembra as de Salvador (BA). Ali, no cantinho ao lado da pia batismal, faço preces, descanso e admiro os afrescos. Gosto de conhecer igrejas por onde vou, pois acredito que é uma forma de - além de estabelecer conexão com o divino - conhecer um pouco a história local. 

Igreja Santo André de Canidelo

No domingo, 2 de julho, percebi certa movimentação na porta, com pessoas cumprimentando-se efusivamente. Será que teria casamento? É sempre bom admirar igrejas decoradas para festas. Além disso, seria boa oportunidade para, depois do evento, vê-la mais de perto pois as portas principais permanecem fechadas fora dos horários de missas. Pela quantidade de ouro ali presente, a igreja tem um sistema de segurança com portas de vidro nas laterais e câmera. 

Então, no meu canto habitual, perto da bia batismal, reparei em um jovem colocando os folhetos nos bancos. E qual não foi minha surpresa quando minutos depois, o mesmo jovem retorna à nave principal, já paramentado, abre as portas e saúda as pessoas! É estranho ver um padre tão jovem. Devagar as pessoas vão entrando, seguindo uma senhorinha acompanhada provavelmente por sua filha. 


Quietinha, ao lado da bia batismal,
observava a movimentação


No altar, o noivo Ricardo Rocha olha para a frente, o que me chama a atenção pela diferença com o Brasil, onde o noivo olha para a entrada da noiva e vê uma sequência, na minha opinião um pouco exagerada, de padrinhos e madrinhas a ingressar no recinto.

A noiva Ana Borges entra com sua mãe e depois entra Sophia, uma bela menina de um ano e dois meses, no colo de provavelmente um parente. 

O padre Pedro Sousa, de 31 anos, inicia uma inusitada cerimônia - casamento seguido do batismo da filha do casal.  Para minha surpresa, o texto escolhido é um dos meus preferidos: 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo 13: "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine ...". 


Os noivos, após a bela cerimônia


Segundo reportagem do site A Verdade, o jovem padre dehoniano Pedro Sousa acredita que “o amor é a palavra-chave de toda a fé em que acreditamos e a palavra-chave da felicidade. Podemos acreditar muito ou pouco, mas se adotarmos a vida de Jesus para a nossa, vamos alcançar o amor verdadeiro. Alguns procuram noutras coisas. mas acredito que este modelo nos mostra uma forma de chegar mais rápido à felicidade”.  

Vale esclarecer a nomenclatura dehoniano. A Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos) nasceu em 1878, em Saint-Quentin, França, por obra de seu fundador, Padre Leão Dehon, então sacerdote da Diocese de Soissons, coadjutor da Paróquia de Saint-Quentin e diretor do Colégio São João. A congregação  assumiu inicialmente o nome de Oblatos do Sagrado Coração. Depois de difícil início e algum tempo suprimida pela Santa Sé, em 1884, renasceu com o nome oficial de Sacerdotes do Coração de Jesus.

Voltando ao casamento, Pedro Sousa diz que mesmo sem ter a experiência no matrimônio, dá um conselho ao casal: além de olharem um ao outro, ambos devem olhar na mesma direção. 

Após a comovente cerimônia, dirige-se à pia batismal e eu mais que depressa, saio dali e entro na outra porta lateral. Sophia, como toda criança, chora um pouco ao receber a água santa, aquietando-se logo.  

Batismo de Sophia

Todos saem e aguardam a saída dos noivos que, passados alguns minutos, são saudados com arroz e pétalas de flores. 
Sophia e sua mãe Ana



Na volta para casa, vejo o cortejo de carros seguindo o veículo dos noivos, todos buzinando pelas ruas de Canidelo.

Caminhando, fico a lembrar dos casamentos (religiosos ou civis) dos meus sobrinhos e dos batismos da sobrinha e afilhada Annamaria e do sobrinho-neto e afilhado João Pedro. Então, lanço um desejo para o universo:  

- Quem sabe não conseguimos reunir a família toda (vinda de vários cantos) em 2024 ou em 2025 nesse cantinho tão querido chamado Canidelo?