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quinta-feira, 25 de maio de 2023

É primavera, quase verão

 

Já economizou água e fez sua hortinha?

Semana passada, minha sobrinha-neta mais velha Luisa estava em casa e eu, toda entusiasmada, a convidei para a gente ver o pôr-do-sol na praia. Eram 6 horas da tarde e ela respondeu calmamente: “Tia Lena, só se a gente for as 9 horas da noite...”

Pois é. Leva-se um tempo para se acostumar com o horário de primavera-verão em que o sol desaparece cada dia mais tarde. Já tinha vivenciado essa sensação em uma viagem a trabalho para a Suécia, mas é completamente diferente quando você reside no velho continente. Pode até ser impressão de moradora ‘de primeira viagem’, mas o sol parece cada dia mais quente e as plantas – assim como os humanos e animais - reclamam por mais água. 

Nesse ano, devido à atual seca, consumir água exige mais cuidado dos governos e dos cidadãos. Uma das notícias de ontem (25/05) é que Portugal não ‘autoriza mais culturas permanentes de olival, abacate e frutos vermelhos’ em Alentejo e em Algarve, segundo matéria do jornalista Carlos Dias no jornal Público.  A medida tomada pelo Ministério de Agricultura e Alimentação irá vigorar enquanto se mantiver o ciclo de seca severa e extrema, ainda que a ministra tenha destacado o papel dessas culturas na ‘balança de pagamentos’. Ao mesmo tempo, haverá incentivo para culturas menos consumidoras de água. A EDIA, empresa de desenvolvimento e infraestruturas do Alqueva, lançou o programa Alqueva Sustentável para “responder aos desafios enfrentados pelos agricultores da região”. 


Alqueva é um projeto conceituado para fins múltiplos situado no Alentejo, sul do país, segundo site da EDIA. Não diz muito, mas ali está a barragem de Alqueva, construída no rio Guadiana, e que lidera um sistema integrado por 69 barragens e reservatórios. A represa de Alqueva, segundo site, é a maior reserva estratégica de água da Europa com capacidade total de 4150 milhões de metros cúbicos. As infraestruturas ali presentes permitem irrigar uma área de 130 mil hectares. E aqui vale uma lição aprendida nesses meses: não se compara nem áreas nem países - como Brasil e Portugal - algo muito feito por nós que aqui estão como emigrantes. Cada país tem seus encantos, problemas e soluções. Afinal, só a soja no Brasil, segundo informação da Datagro, o total semeado foi revisto para 44,22 milhões de hectares, o que representa alta de 4,9% versus a safra 2021/2022.

Números, discursos e intenções à parte, é importante destacar a preocupação governamental com a agricultura assim como de organismos, empresas e iniciativas - tudo criado para apoiar os agricultores. Afinal, a agricultura contribuiu e muito para o crescimento do país que atingiu 6,7% em 2022, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística de Portugal.

Deixando os números de lado, vale dizer que nessa estação mais quente, as pessoas se animam a ter mais vasos de flores em casa, a renovar seus vasos de plantas ou a iniciar pequenas hortas. E há algo facilmente notado quando se caminha diariamente no bairro: as pessoas aproveitam cantinhos em suas casas para cultivar folhagens, tomates, e ainda pequenas árvores de limão amarelo ou vasos de flores. 

Então, animada pelo clima primaveril, fui comprar terra, vasos e sementes na Flor do Norte, mega loja presente há 35 anos no bairro Arcozelo (onde mora minha sobrinha e família). Lição aprendida na primeira compra: aqui lojas de plantas vendem plantas. Então, se precisar de pazinhas, pequenos rastelos e outros utensílios necessários, melhor procurar nas grandes lojas da China (onde se encontra de tudo um pouco com preços convidativos para comprar) ou em grandes supermercados (onde, nessa época, vendem esses artigos).


Com a varanda organizada – terra, floreiras, sementes, ferramentas - pedi ajuda via WhatsApp para Dora e Carlinhos, amigos de longa data e que têm a Mandrágora Arte Ornamental no Embú das Artes. São experts e já me orientavam no Brasil com outros tipos de plantas.  Então, Descubro, então, para minha surpresa, que é preciso fazer buraquinhos distantes três centímetros na floreira para plantio de salsinha. 

Sabiam que o alecrim é um antissocial – gosta de pouca água e não se dá com a pequenina salsinha. Tudo plantado na primeira floreira, penso que é preciso apenas esperar alguns dias para elas germinarem e crescerem – assim como as plantas do meu vizinho debaixo que tem um belo espaço por morar no rés-de-chão – como chamam o andar térreo - e colhe couves e outras folhas simplesmente enormes.  

Aí aprendo outra lição, dada pela sobrinha Paola que mora em Milão há mais de 15 anos: dificilmente, as salsinhas de sementes plantadas nas floreiras terão o mesmo tamanho daquelas em vasinhos que a gente compra nos supermercados. Não desisto, mas, por via das dúvidas, vou de novo para a Flor do Norte e compro tomates e manjericão-de-folha larga, como é conhecido o manjericão, já plantados, e transfiro para uma segunda floreira.  Afinal, as pequeninas salsinhas podem se entusiasmar com a presença dos tomateiros e ganharem envergadura!


De volta à escassez de água nesses tempos mais secos, percebe-se a consciência dos cidadãos no uso da água. As pessoas não lavam calçadas – um hábito que no Brasil eu já considerava desperdício.  Carros? Levam em serviços que fornecem água e aspirador e onde elas mesmas limpam seus veículos.  Como esse é um hábito que não tenciono adquirir, descobri um lava jato automático perto de casa bem mais barato que os lava jatos dos shoppings. E aí ganho mais uma  lição: Por que pagar mais um euro pela cera, se o trabalho de encerar o carro será meu, logo após o carro receber um jato da dita cuja? A dica foi dada por um brasileiro que, ao perceber que eu tentava entender como a máquina funcionava, veio ao meu auxílio. Pedindo licença por se intrometer, me orientou a usar a máquina e ainda falou sobre o melhor custo-benefício de lavagem na tabela de preços. Cinco minutos depois, foi a minha vez de orientar um português que ali chegava para lavar seu carro, um belo Alfa Romeo.


Então, sempre é tempo de poupar água, de aprender o seu melhor uso e regar com cuidado as sementes plantadas para, com satisfação, pegar um pouco de manjericão para a salada do almoço ou do jantar – enquanto se aguarda o tomate tomar uma cor e ficar vermelhinho.

#Escassez de água #Alqueva #hortacaseira #lavarápido #alentejo 


quarta-feira, 10 de maio de 2023

Primeira etapa cumprida

Autorização de residência, a senha 
para sentir-se em casa

5 de maio às 11h30. Esse dia ficou em modo alerta na minha agenda desde dezembro do ano passado, quando recebi o passaporte com o visto concedido pelo governo português. Dia da entrevista no CNMAI - Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes. Assim como eu, pelo menos duas centenas de pessoas ao longo daquela sexta-feira ensolarada na cidade do Porto dirigiram-se ao Edifício Capitolio. Na recepção, a funcionária pública localiza meu nome, dá a senha D-34 e orienta: "olhe no segundo quadradinho no ecrã (tela em Portugal). Agora, está no D24). 


Na sala, quatro fileiras de cadeiras ocupadas por pessoas de diferentes origens acomodando cerca de 30 pessoas. Muitas vindas das ex-colônias portuguesas na África e que integram a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A CPLP, criada  há 27 anos em Lisboa, é constituída por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste e visa uma cooperação político diplomática e defesa da língua portuguesa. 

Mulheres negras jovens, alguns rapazes com turbante - e todos olhando seus celulares. Enquanto uns trocam mensagens por whats, outros ligam e conversam em voz baixa em seus idiomas. Após 45 minutos, a senha H9 é chamada. Como não responde, a funcionária da recepção sai do prédio à  procura do dono da mesma. Sem êxito. Muitos aguardam do lado de fora e aproveitam para trocar informações, sempre úteis para quem está se adaptando a um novo lugar. Na sala de espera,  o ambiente é de silêncio - seguindo orientação da placa em uma das paredes. Ao observar pessoas de diferentes origens, fico refletindo sobre o quanto muitos de nós, brasileiros, desconhecemos nossa história, Durante os anos do primeiro e segundo grau, pouco se aprofunda sobre o conhecimento de nossas origens. E quando ingressamos na universidade, conforme as carreiras escolhidas, deixamos de lado o passado, vivemos o presente e projetamos constantemente o futuro. 

E é para ter um futuro melhor, com novas perspectivas de vida para si ou para a família, que muitos migram para países em que não dominam a cultura nem o idioma. Mesmo falando português, estamos em outra casa, com outros costumes e onde somos convidados. 



Após uma hora e meia, chega minha vez. Vou à sala das senhas D-H. Ali, há cerca de 20 mesas com cadeiras para receber os entrevistados. Ao lado de cada mesa, um scanner serve para que os documentos entregues sejam arquivados digitalmente e devolvidos em seguida. Sou atendida pela jovem funcionária Valéria.  Ela comenta que o sistema está um pouco lento: "Deve ser porque é sexta-feira". Conversamos sobre tendências de as empresas diminuírem ou eliminarem  esse dia de trabalho na semana e ela sorri: "Ah, seria muito bom se isso acontecesse!".  Após verificar tudo, fazer algumas perguntas e receber a ficha ali preenchida, fazer foto digital, a biometria e assinatura digital, Valéria explica que receberei pelo correio a autorização de residência. O pagamento da taxa é feito em outra mesa e dado o recibo.

Alívio. Estou mais tranquila. Eu e minha irmã, que me acompanhou para dar fundamental apoio, saímos. O sol continua forte em plena primavera. Agora é retornar para Canidelo, em Vila Nova de Gaia. Nos próximos passos dessa jornada, estão as providências para obter o número definitivo do SNS - Sistema Nacional de Saúde, e a carteira de condução portuguesa.   

Ao dirigir para casa, fico lembrando dos meses de preparação, dos muitos documentos providenciados, das  orientações da advogada da empresa contratada para orientar o processo, do envio pelo correio de tantos papeis em um envelope enorme e, claro, das várias taxas pagas até a chegada do passaporte com o visto e o agendamento da entrevista e sorrio para mim mesma. 

Agora sim, me sinto muito mais em casa. Então, é hora de conhecer melhor cada canto desse país que tem se destacado no cenário europeu ao receber migrantes e, especialmente, nesse último ano e meio, tem abrigado milhares de ucranianos. Mas essa é outra história que logo, logo, compartilharei. 

segunda-feira, 1 de maio de 2023

Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar - o mundo dos supermercados

Para quem chega em Portugal, a variedade de supermercados encanta. Há lojas de supermercados franceses, alemães, espanhóis, além de duas redes portuguesas. A gama de produtos pode não ser tanta, mas os preços – especialmente de itens nas ofertas semanais – fazem a gente se sentir em um paraíso. Logo a gente aprende a consumir o que é da estação pois é mais barato. Agora, é época de frutos vermelhos e cítricos. Bananas chegam de Açores ou do Brasil, que também envia mamão formosa – um luxo que a gente aprende a comprar só metade e desfrutar no final de semana pois é bem caro. 

Carrinho lotado de frutas, verduras e de ofertas, com base na lista do que estava faltando em casa, é a hora do caixa. Além dos descontos semanais, há ainda os pontos dados pelo cartão do supermercado. Em um deles, é possível trocar esses pontos por euros em uma rede de combustíveis. 

No checkout, está Daniel Fernando Arfaarma, brasileiro e  residente em Vila Nova de Gaia há três anos. Começamos a colocar os produtos para serem pesados e precificados – em alguns supermercados isso é feito no momento do pagamento e, em outros, o cliente pesa fruta ou verdura na máquina no setor, tira a etiqueta e cola no saquinho. Então, ele abre um sorriso e diz: “que saudade desse sotaque!” 

E a conversa segue animada. Nascido e criado em Santos, fala sobre as mudanças da sua vida e conta como é trabalhar como caixa no Mercadona, uma rede espanhola que tem seus escritórios em Portugal localizados em Vila Nova de Gaia.  Explica os benefícios, o respeito dado aos funcionários e outras diferenças que observou em relação ao Brasil. Saudades? Claro que sente. Quando voltou para visitar a família e pensou em retornar à cidade natal, lembrou logo de sua vida aqui com mulher e filha e manteve a decisão. “Aqui, trabalhamos, mas também saímos para nos divertir, para passear e conhecer outros lugares. Aqui a gente vive, lá se sobrevive”. 



Em 2022, quem liderou o ranking dos supermercados foi o Continente, segundo estudo Kantar analisado em matéria de Ana Gaboleiro, a coordenadora editorial digital do site Imagens de Marca.  Mercadona ganha espaço entre os supermercados que mais vendem. Segundo a matéria, “o Lidl (supermercado alemão) é o grande vencedor de 2022". 

No outro lado da questão, há um processo da Autoridade da Concorrência (AdC) que, em 26 de abril, aplicou multas no valor total de 16,9 milhões de euros a Auchan, Modelo Continente, Pingo Doce e o fornecedor comum às três companhias, a JNTL Consumer Health, especializada em produtos de beleza, cosmética e higiene pessoal, alegando participação em esquema de fixação de preços. A questão está sendo examinada ainda pelo Tribunal Constitucional da União Europeia que vê traços de inconstitucionalidade nos trâmites do processo, ainda que a lei permita. 

Daniel termina o atendimento com um sorriso no rosto – algo que temos encontrado nos que prestam serviços de supermercados e de alimentação, nas áreas de ‘restauração’, como é chamado o setor de restaurantes nos centros comerciais, que para nós são os shopping centers. As diferenças no português luso e no brasileiro existem e, aos poucos, quem para cá vem morar, aprende palavras novas ou outros  significados – mas isso já é outra história.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Saúde e bom atendimento público são fundamentais


A contínua dor nas costas indicava a necessidade de auxílio médico. Ainda sem o ‘utente’ – o número de usuário do Sistema Nacional de Saúde – a solução foi ligar para o SNS 24 horas para orientação. Após explicar que era brasileira e, por acordo entre países, tinha direito ao atendimento primário, respondi uma série de perguntas – que me lembrou o atendimento médico online nos tempos de Covid-19. 

No fim, a funcionária pública orientou a procurar o determinado centro de saúde das 20h às 23 horas, que ficava na região norte de Vila Nova de Gaia – quando poderia ser atendida por não ter o utente e não ser um atendimento emergencial.  Em seguida, recebi por mensagem no celular a confirmação do atendimento e o endereço e horário para a consulta. 

De noite, lá fui eu dirigindo nas estradas para Vilar do Andorinho – você se acostuma a considerar as estradas como avenidas de seu bairro. 

Ao chegar, entrou em ação a simpatia e descontração brasileira para ajudar no relacionamento com as pessoas. Nem sempre a recíproca existe pois percebe-se que o português é direto e objetivo – o que não quer dizer que seja ríspido. É apenas um jeito diferente do nosso. Após explicar a situação, as duas funcionárias de plantão não só me orientaram para o atendimento médico como fizeram meu cadastramento no sistema nacional e passei a ter um número provisório de utente (agora posso até fazer um seguro-saúde com valor de 4 euros ao mês). O utente definitivo será obtido depois que eu tiver o título de residência por dois anos – a ser concedido após entrevista a acontecer em breve.

Na espera pela consulta, jovens com bebês, senhoras idosas acompanhados por filhos, casais de diferentes idades. Cada um aguardando pacientemente para entrar em um dos nove consultórios médicos. Na minha vez, fui atendida pela dra. Maria, uma médica que aparentava mais de 65 anos, cuja especialidade era medicina geral e familiar. Após perguntas e exames, prescreveu os medicamentos sendo que um deles foi ministrado por injeção no ambulatório, logo após a consulta. Na saída, a funcionária administrativa informou que o boleto da taxa pertinente ao serviço seria encaminhado para minha casa para pagamento posterior.

Comparar com o Brasil é inevitável. Há o SUS – que acredito ser um dos melhores sistemas de saúde, mas subdimensionado para a população brasileira, fazendo com que a espera para exames e procedimentos médicos como cirurgias eletivas demore meses. Por outro lado, é grande a diversidade de planos de saúde – que muitas vezes se aproximam das esperas habituais do SUS. Há ainda alguns planos que foram concebidos para atender pessoas sêniores (me recuso a chamar melhor idade pois acredito que a melhor idade é aquela que envolve o estado de espírito da pessoa – há jovens que nasceram velhos e setentões que gostam da vida com maestria). 

No Brasil, eu tinha um plano de saúde sênior e a demora em atendimento ambulatorial em hospitais chegava a ser de quatro horas nos finais de semana ou feriados. Uma das vantagens do SNS em Portugal é a triagem telefônica. Se o  atendimento não é emergencial, o SNS 24 orienta os cidadãos conforme a avaliação dos sintomas descritos. Caso já tenha médico de família, tudo começa com o atendimento feito por ele em um centro social de saúde. Exames só são solicitados em caso de real necessidade para fechar um diagnóstico que não se consegue com o atendimento primário. 

Há falta de médicos de família e essa é uma pauta constante na mídia. Caso a situação da pessoa seja grave ou com risco de vida, ao ligar para o número 112, recebe a orientação dos funcionários do INEM – Instituto Nacional de Emergência Médica – que acompanham desde o local  da ocorrência até a unidade de saúde. Temos esse serviço semelhante no Brasil, mas está tudo concentrado no SUS, nas prefeituras e estados – o que gera sobrecarga do sistema. As situações são semelhantes e me fazem perguntar: será que os gestores dos dois sistemas já trocaram suas experiências para que cidadãos no Brasil e em Portugal possam ser beneficiados sempre com o melhor atendimento?

domingo, 9 de abril de 2023

Ovos pintados, tradição familiar retorna ao velho continente

Desde meados de março, imaginava os supermercados  repletos de ovos de chocolate. Entretanto, cada país tem seus costumes e tradições, e, em Portugal, se há menos ovos de chocolate, é tempo de saborear amêndoas cobertas com açúcar colorido ou com chocolate ou deliciosos bolos de frutas secas e creme.  No início da semana da Páscoa, fui fazer as compras com minha irmã Vera em um dos supermercados aqui perto de casa – depois de pesquisar os preços nos vários sites e folhetos, um costume que a gente adquire rapidinho por aqui – afinal, quem não gosta de uma promoção? 

As pessoas colocavam nos carrinhos  chocolates, doces, tortas, amêndoas coloridas, e alguns poucos ovos de chocolate. A funcionária do caixa explica que a cada ano que passa a Páscoa está mais tranquila, com menos gente e não tem tanto consumo de ovos de chocolate. Aí dá para perceber a surpresa dela ao ver os sete grandes ovos de Páscoa que compramos!  

Segundo a jornalista Pri Fortinho no site nacionalidadeportuguesa, “mesmo sem ser o centro das atenções, os portugueses consomem sim o ovo de Páscoa. Mas, não há a mesma variedade e valor agregado aos ovos de chocolate como é no Brasil. Muitas vezes, inclusive, são ovos de galinha cozidos com algum corante para ficarem coloridos, que as famílias fazem para quebrarem e comerem no almoço de domingo de Páscoa”.


Então percebo as conexões que atravessam continentes como a nossa tradição familiar da pintura de ovos na Páscoa e que existe em alguns lares de Portugal. Em casa, os ovos brancos de galinha são cozidos, e, depois de frios, nos reunimos para pintá-los. Os temas são livres e não nos atrevemos a competir com os ovos poloneses – um primor na apresentação e equilíbrio de linhas e cores – e assim  mantemos a a tradição e podemos relembrar meu pai, filho de imigrantes poloneses e nossas origens. 



Nesse ano, celebramos com parte da família – a de Annamaria e Lauro - que residem em Portugal e a sobrinha Paola, que mora em Milão e veio para a Páscoa – todas reunidas na pintura de ovos após 15 anos! No domingo, cada um escolhe de olhos fechados um dos ovos coloridos. 

Depois todos dividimos o ovo pelo número de pessoas à mesa e cada um entrega suas partes aos outros, recebendo também partes dos demais – no final da animada troca de pedaços de ovos de galinha, cada um ficará com seu ovo cozido!  E assim, a tradição familiar retorna ao continente de onde saiu há mais de 130 anos. 











quinta-feira, 30 de março de 2023

Porto ou Lisboa? Rio ou Sampa?

 Mudar de continente requer a compra de itens iguais ao que se tinha e precisou se desfazer. Então, certo dia, lá vou eu mais uma vez para a Leroy Merlin de Canidelo, dessa vez acompanhada pelo sobrinho Octavio que está de férias e veio conhecer Portugal. Além da boa companhia, a vantagem é ele saber (e muito!) de eletrônica e de soluções para casa. Depois de entender como pegar senha e qual o atendente disponível (aqui tudo é com senha – até para comprar o pãozinho na padaria, mas isso é outra história...), somos atendidos por um gajo que de imediato observa não sermos daqui... Não, não é o sotaque brasileiro e sim o fato de estarmos sem agasalho nos dias finais de outono. Começamos a falar de Lisboa – onde Octavio estava – e o rapaz já iniciou os esclarecimentos sobre as duas cidades. Confesso que não imaginava encontrar do outro lado do oceano Atlântico rivalidade semelhante a que existe no Brasil – entre São Paulo e Rio de Janeiro; entre Belém e Manaus e por aí vai.

“Em Porto se trabalha. Lisboa é para tirar férias. Lá tudo é diferente”, esclarece o nativo português. “Se pedir um chopp, tem que dizer imperial. Aqui é fino”.   

E isso não é de hoje! Permita-me apresentar Ramalho Ortigão, autor do livro “As praias de Portugal”. Se estás a estranhar o nome, já te tranquilizo! Ele não é de nosso tempo.  José Duarte Ramalho Ortigão nasceu em 1836 no Porto. Formado em Direito por Coimbra, acabou por abraçar o jornalismo. Amigo de Eça de Queiroz, possuía verve espirituosa e era excelente observador. 

Conta nesse livro que, em certo momento, os portuenses – mesmo detestando touros – ao perceber que Lisboa tinha sua bela praça para a prática, construíram logo duas praças: “Vamos provar imediatamente que gostamos trezentas mil vezes mais de touros que eles!” , diziam. E foi assim que as touradas se tornaram atração durante dois anos, com roupas charmosas, guitarras importadas e tudo o mais.

Lisboa tinha recebido lição terrível, diz Ortigão. Porto havia mostrado que se quisesse gostar de touros, não haveria ninguém mais maníaco, mais doido e mais frenético que a gente dessa cidade. Lição provada, as praças foram abandonadas e os portuenses voltaram aos seus hábitos costumeiros – como o de apreciar o mar e o rio. E Ortigão termina o capítulo, pontuando:

“O portuense é o homem mais dedicado, mais serviçal, mais bom homem. Somente há três coisas de que ele não gosta. Não gosta de Lisboa. Não gosta da polícia. Não gosta da autoridade. Da autoridade, vinga-se, desprezando-a. Da polícia, vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amável hospitalidade e com a mais obsequiosa bizarria”.

Então, será que sou Porto ou Lisboa? Rio ou Sampa? Manaus ou Belém? Não importa qual lado do oceano esteja, sigo apaixonada pelo modo descontraído e aberto de cidades banhadas por mares, sem deixar de gostar daquelas que se ergueram perto dos dos rios. Fino ou imperial? Importante é a companhia e a vista!  

Abaixo a praia que fez parte de minha caminhada  na última segunda-feira!   



quarta-feira, 22 de março de 2023

Pare, Olhe e... Sorria!

A tarde de 20 de março de 2023 estava quente no Porto, anunciando a chegada da primavera no hemisfério norte. Era o primeiro dia a caminhar sozinha nas ruas dessa cidade que tem encantado turistas. A rua Santa Catarina recebe de braços abertos alemães, japoneses, holandeses, argentinos, brasileiros, entre muitos outros que por ali circulam. Alguns caminham sorrindo e olhando um papel amarelado como se fosse um velho jornal. Então, com o calor, nada como um gostoso sorvete – ou um gelado como é chamado em Portugal. Andando devagar para saborear o sorvete de pistache, vejo duas jovens com chapéus coco. Enquanto uma tira fotos, a outra distribui os tais papeis amarelados. Diante da pergunta sobre o custo do trabalho, a resposta era sempre a mesma. Aquilo era uma doação e as pessoas colocavam ali o que podiam para as duas ucranianas.

Darya Yeremenko – a jovem que distribuía o papel amarelado A4 - está em Porto há pouco mais de um mês, já tendo passado por outras cidades de Portugal onde está há um ano, e por outros países europeus – depois de ter saído da Ucrânia onde ainda reside sua mãe.  Com olhos verdes e sorriso franco, explica que ainda fala pouco o português e entende melhor o inglês. Descontraída, enfatiza que Porto é uma cidade cativante, diferente de Lisboa e de outras por onde passou. Ali se sentiu como se estivesse em casa.

Enquanto Darya conversa comigo, Cristina Kopii cativa as pessoas, fotografando-as rapidamente.com uma câmera artesanal que lembra uma antiga Linhof 4x5 e que tem em seu bojo uma câmera digital. Logo em seguida, Darya retira o papel diagramado como uma antiga edição do Diário do Porto – e que traz a foto da pessoa fotografada abaixo do título “O Porto recebeu uma visita muito especial”. O texto padrão para todas as impressões conta sobre a cidade de Porto, a produção de seu famoso vinho e ainda informa alguns lugares que valem a pena ser visitados, como a Catedral da Sé ou a Torre dos Clérigos.




 A iniciativa faz parte do projeto Old Press, cuja comunidade no Instagram, denomina-se como o primeiro jornal de rua no mundo.  Pode até não ser, mas que as jovens ucranianas trazem charme para a rua Santa Catarina, ah, isso é verdade!

https://www.instagram.com/old.press/?hl=en