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quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Comboio, a aventura pelos trilhos de Porto

Destinos conectados por minutos    

Trem. Lugar onde as pessoas se encontram para ir e voltar do trabalho, ir para a escola, visitar amigos ou parentes, ir à praia, ir à serra. Para quem mora em Vila Nova de Gaia, é também um meio de ver o belo Douro e a cidade de Porto, além da chegada na deslumbrante Estação São Bento com seus azulejos a contarem histórias. 


Parece simples? Nem tanto. Na semana passada, na volta da sessão de fisioterapia que faço no Hospital Trofa Gaia, no bairro ao lado, resolvi voltar de trem para casa. E aí começou a aventura! 

É preciso esclarecer que Portugal está implementando um grande investimento na malha ferroviária. Até 2030, 10.510 milhões de euros serão aplicados na malha ferroviária. São 16 projetos que passam por novas linhas de metrô e de trem e modernização de muitas já existentes. Então, pode imaginar que muitas  estações estão em obras, além de ser preciso entender qual trem é direto sem parar e qual para nas estações. 

Assim, depois de pegar o comboio (como chamamos trem aqui), descer na estação seguinte, retornar para a estação de Vila Nova de Gaia, achei melhor perguntar para o bilheteiro. O diálogo não poderia ser mais surreal:

- Boa tarde, estou um pouco perdida..

- Boa tarde, a senhora está em Vila Nova de Gaia!

A vontade foi dizer que isso eu já tinha entendido, mas queria era tomar o trem correto. Então, fui tentar entender as planilhas colocadas nos murais com os horários e destinos dos trens. Podem ser até compreensíveis para os nativos ou moradores nessas terras há algum tempo, mas para mim pareciam hieroglifos egípcios! 

A sobrinha Anna veio ao socorro depois de eu reportar no nosso grupo de WhatsApp  (santo Whats!) que não estava tendo muito sucesso em voltar de trem para casa. Ah, bom! Tem que esperar passar o segundo comboio que vai para Ovar (que nunca tinha ouvido falar) pois ele para em todas as estações.  Mas não foi dessa vez que acertei.

Desci na outra estação pois o comboio não parou em Coimbrões, perto de casa. Aí veio a pergunta de quem realmente não anda de trem: 

- Será que tem que apertar algum botão para o trem parar na estação? 

Resposta imediata da sobrinha: 

- Não tem que apertar nenhum botão, tia Lena. Ou para ou não para! 

Finalmente, cheguei no bairro e parei para saborear um merecido sanduiche no Burguer King. 

Dias depois, lá fomos nós - eu, minha irmã Vera, Luisa e Catarina para Porto, saindo da estação Miramar. A vista na viagem é incrível em tarde ensolarada de agosto. Tarde com passeio, sorvete, algumas compras (ninguém é de ferro!) voltamos e certas de que tínhamos tomado o trem correto depois de perguntar, entender os  horários e as plataformas, relaxamos... Até que uma senhora que estava no trem e ouviu a gente comentar que iria descer em Coimbrões, disse com toda calma do mundo: 

- Se querem parar em Coimbrões, precisam descer na estação agora e tomar o comboio para Aveiro. Saímos as quatro correndo! 

Realmente, tomar comboio é uma aventura! 




sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A casa das sete meninas



Miúdas aprendem o trato com a beleza

Cuidar da beleza faz muito bem para si!

- Fotos? Mas se eu soubesse, tinha ido ao cabelereiro! 

E com essa risada gostosa, começou a boa e descontraída conversa com Carminda dos Anjos Teixeira Pereira, 63 anos, dona do salão Carminda, pertinho de casa no Canidelo. .

Vale registrar que logo que aqui cheguei, há quase seis meses (o tempo voa!), procurei um lugar onde me sentisse tão bem como o salão La Femme, da Gaby e gerenciado pela Tânia em frente ao condomínio em que eu morava na Vila Leopoldina, em São Paulo.

Finalmente, depois de três meses aqui e muito observar nas caminhadas do bairro, entrei na casa azul, muito 'fixe' na rua do Meiral, 35. (onde, já sabem, tem a confeitaria, a papelaria, a lojinha de vinhos e que vende algumas frutas - tudo em frente à escola do Meiral onde os miúdos estão a brincar na colônia de férias. Tudo a caminho da Rua Bélgica). Depois de subir dez degraus, está um amplo e claro salão com várias salas de extremo bom gosto, equipamentos novos e espaços cuidadosamente distribuídos. Há um espaço apenas para a manicure, que tem sua mesa, que observo ser tão diferente do Brasil que sempre abominei aquelas cadeirinhas pequenas e as profissionais curvas).  

Espaço com música, silêncio, algumas conversas em tom baixo. Tudo feito com calma. Profissionais com foco no que estão a fazer. No final do pavimento, há mais salas - para pedicure, massagens, tratamentos de estética. 

Carminda, 65 anos, nasceu em Mirandela, no distrito de Bragança. Aprendeu os primeiros princípios sobre os cuidados com cabelos de 12 aos 14 anos. Depois conclui os estudos e exerceu a função de escriturária até os 27 anos em empresas publicitárias (ah, está explicado o bom gosto pelo ambiente e o foco em agradar as consumidoras!).  Depois do curso profissional na área da beleza, abriu seu primeiro salão em 1988. E isso foi só o começo.. 

Sou uma feminista suave e tenho a convicção que as mulheres são por natureza batalhadoras e não desistem logo. Carminda não foge à regra. Chegou a ter três salões ao mesmo tempo, sempre em Canidelo. Hoje, com ela, são sete profissionais: Elsa, Fátima, Fernanda, Liliana, Helena, Andrea.  A garra feminina que foi o foco do romance de Letícia Wierzchowski em A Casa das Sete Mulheres e depois adaptada como mini-série da TV Globo, está ali presente.

As meninas na abertura do novo espaço 

Mãe de um casal e avó de duas meninas e dois meninos, Carminda conta com a filha Elsa à frente dos tratamentos estéticos (vou fazer um deles para dar um impulso na dieta que estou seguindo - afinal, ainda é verão!). Ali o tratamento estético é assunto prá lá de sério. Apenas um dos aparelhos, diz Carminda, custou 40 mil euros.

Conversamos sobre os tempos pós pandêmicos e ela observa que as pessoas de forma geral ainda estão tensas e preocupadas. "Antes da Covid-19, as mulheres vinham mais ao salão, quase que semanalmente". E ela sabe o que está dizendo, afinal atende várias gerações de clientes - da avó à neta. 

Para quem está pensando em empreender por aqui e abrir seu salão de beleza, ela ressalta que é importante procurar uma zona sem tanta concorrência e sempre buscar oferecer diferenciais.  Segundo o INE - Instituto Nacional de Estatística, há mais de 38 mil salões de cabelereiro e institutos de beleza em Portugal e que empregam mais de 50 mil profissionais.

E o que esse trabalho traz para si ? (aqui usa-se o si ao invés de você). 

Carminda abre um sorriso:

- O trabalho é prazeroso!  É muito bom ver a transformação da cliente, o ar feliz que tem ao olhar no espelho no final de um corte, de madeixas, de uma coloração.  A gente não precisa perguntar se ela gostou: a resposta está ali!



Carminda em seu amplo salão 


Na profissão, como na vida, é necessário seguir princípios e valores. Carminda chega a perder uma cliente que insista em determinado tratamento químico quando ela, com sua experiência e conhecimento técnico, sabe não ser o mais adequado: "Essa é minha forma de pensar e agir. Lidamos com produtos químicos e temos que ter consciência". 

Eu testemunhei isso, pois antes de fazer as madeixas, foi feito um teste e só depois no dia seguinte é que a profissional Fernanda conduziu o tratamento. E, ao olhar no espelho, foi muito bom reconhecer aquela mulher que lá na distante São Paulo, saía feliz depois de horas no salão!! Sensação de estar em casa!


Que tal o novo look?

#Canidelo #beleza #salão #Carminda #Portugal #cabelos

terça-feira, 25 de julho de 2023

Livros já lidos fortalecem uma causa solidária

As páginas  voltam mais amadurecidas e belas 


Cascais tem um charme especial. Ali, pode-se ouvir com mais constância o brasileiro, como é chamado por aqui o português falado no Brasil. A cidade  encanta com seus restaurantes elegantes, casas deslumbrantes, vistas invejáveis. E tem mais: carros iguais aos que vemos em filmes de James Bond. Pertinho, há lugares que nos deixam sem palavras como a Boca do Inferno ou o Cabo da Roca (ali, não dá mesmo para falar, tal o vento do ponto mais ocidental da Europa!). 


Então, quando pensa que já viu tudo, chega-se à Praça da Fortaleza. Ninguém fica imune à Cidadela de Cascais, integrada por seu Palácio, Torre de Santo Antônio e a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz. Respira-se história nesse ambiente erguido para defender a região aos ataques que ocorriam do século XV ao XVII. Desde meados do século XX, foi esse o lugar escolhido pelas elites portuguesas e estrangeiras para desfrutarem dias de verão na vila pertencente ao distrito de Lisboa. 

Elites escolheram Cascais  como veraneio 


Mulheres elegantes ou descontraidamente vestidas – com chapéus para se protegerem do sol ardente do verão. Muitas acompanhadas pelos maridos – aliás, vale uma nota depois de meses de observação (pode ser precoce e sujeita à mudança!):  as mulheres portuguesas são altivas e têm opiniões firmes, ditas sem medo de serem felizes. São generosas e, ao mesmo tempo, dedicadas ao trabalho seja ele qual for e à orientação de seus miúdos. 

Exemplo dessa garra feminina portuguesa é encontrado ao subirmos uma escadinha estreita no Restaurante Taberna da Praça. Quando se chega ao primeiro andar do espaço pertencente ao hotel Pestana Cidadela Cascais, deslumbram-se prateleiras com livros já lidos em excelente estado, divididos por idiomas ou por temas. Estamos na Livraria Déjà Lu, onde é possível encontrar livros por preços mais que convidativos. 


Paraíso para leitores ávidos


Ali está A Relíquia, de Eça de Queiroz, em edição recente e perfeito estado por 4 euros! Aliás, devo confessar que me tornei fã de carteirinha desse autor e sua verve.  Na mesinha do caixa, a voluntária Rita Lobo (simpática como a ‘nossa’ brasileira e doce Rita Lobo) conta que essa é uma livraria solidária, ou seja, as receitas são revertidas integralmente para Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21. 

A voluntária Rita Lobo

E quem teve a ideia de transportar os viajantes que aqui chegam, mais conhecidos como turistas, para caminhos sinuosos e atraentes das palavras no papel? Duas portuguesas com muita determinação: Francisca Prieto e Maria Faria de Carvalho, que já tinham criado o blog Déjà Lu em 2011 para leiloar livros usados. Então, com exemplares vindos de todas as partes do país, elas preencheram as prateleiras em um ambiente acolhedor como uma sala de casa.
 
 A livreira Francisca na mídia portuguesa. 
Aqui, crédito para a plataforma Sapo.  

Assim nascia em 2015 a livraria Déjà Lu, que conta com voluntários para a coleta, catalogação das obras e atendimento. No Brasil, a Trissomia 21 é conhecida como Síndrome de Down. Descrita pela primeira vez em 1866 pelo médico inglês John Langdon Down, a Síndrome de Down consiste numa alteração cromossômica: em vez de dois, existem três cromossomas 21. Daí a designação Trissomia 21. 

Uma das filhas de Francisca leva o seu nome e é portadora da Trissomia 21.  A hoje jovem de 17 anos passou várias tardes de sua infância  nas salas da Déjà Lu. E o projeto da Associação segue, com o objetivo de apoiar a profissionalização dos jovens portadores de Trissomia 21.

E desde 18 de julho, Francisca Prieto tem companhia na jornada de inclusão em Cascais.

Foi aberto o terceiro café-restaurante inclusivo e solidário da Associação francesa VilacomVida em Portugal. Ali serão empregados 12 jovens adultos com dificuldades intelectuais e de desenvolvimento, além de um gerente, um subgerente e seis supervisores que vão acompanhar e formar os jovens. Depois de conversar com Rita, pegar um papelzinho verde em um aquário (frases tiradas de livros, claro!), saio carregada de livros cuidadosamente condicionados em duas sacolas de pano. 

Estou feliz. Afinal, os livros que cobriam uma parede inteira de meu apartamento na Vila Leopoldina, em São Paulo, seguiram rumo a outros leitores. E, em uma vila de além-mar, encontro outros que ficarão ao meu lado por um bom tempo – e, claro, terão outros companheiros assim que eu voltar à Livraria Déjà Lu! 


#ler #livros doados #Dèjá Lu #Cascais #Cidadela #descoberta # Portugal 


domingo, 9 de julho de 2023

Ainda que eu falasse a linguagem dos homens e dos anjos

Canidelo, cantinho que se torna querido


Nos primeiros dias em Portugal, ainda em fevereiro, iniciei minhas caminhadas pela freguesia de Canidelo (no Brasil, é bairro), e encontrei a Igreja de Santo André de Canidelo. Então, criei um hábito. Sempre que vou buscar o jornal Expresso no posto da CTT às sextas ou aos domingos, costumo dar uma paradinha na igreja que tanto me lembra as de Salvador (BA). Ali, no cantinho ao lado da pia batismal, faço preces, descanso e admiro os afrescos. Gosto de conhecer igrejas por onde vou, pois acredito que é uma forma de - além de estabelecer conexão com o divino - conhecer um pouco a história local. 

Igreja Santo André de Canidelo

No domingo, 2 de julho, percebi certa movimentação na porta, com pessoas cumprimentando-se efusivamente. Será que teria casamento? É sempre bom admirar igrejas decoradas para festas. Além disso, seria boa oportunidade para, depois do evento, vê-la mais de perto pois as portas principais permanecem fechadas fora dos horários de missas. Pela quantidade de ouro ali presente, a igreja tem um sistema de segurança com portas de vidro nas laterais e câmera. 

Então, no meu canto habitual, perto da bia batismal, reparei em um jovem colocando os folhetos nos bancos. E qual não foi minha surpresa quando minutos depois, o mesmo jovem retorna à nave principal, já paramentado, abre as portas e saúda as pessoas! É estranho ver um padre tão jovem. Devagar as pessoas vão entrando, seguindo uma senhorinha acompanhada provavelmente por sua filha. 


Quietinha, ao lado da bia batismal,
observava a movimentação


No altar, o noivo Ricardo Rocha olha para a frente, o que me chama a atenção pela diferença com o Brasil, onde o noivo olha para a entrada da noiva e vê uma sequência, na minha opinião um pouco exagerada, de padrinhos e madrinhas a ingressar no recinto.

A noiva Ana Borges entra com sua mãe e depois entra Sophia, uma bela menina de um ano e dois meses, no colo de provavelmente um parente. 

O padre Pedro Sousa, de 31 anos, inicia uma inusitada cerimônia - casamento seguido do batismo da filha do casal.  Para minha surpresa, o texto escolhido é um dos meus preferidos: 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios, capítulo 13: "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine ...". 


Os noivos, após a bela cerimônia


Segundo reportagem do site A Verdade, o jovem padre dehoniano Pedro Sousa acredita que “o amor é a palavra-chave de toda a fé em que acreditamos e a palavra-chave da felicidade. Podemos acreditar muito ou pouco, mas se adotarmos a vida de Jesus para a nossa, vamos alcançar o amor verdadeiro. Alguns procuram noutras coisas. mas acredito que este modelo nos mostra uma forma de chegar mais rápido à felicidade”.  

Vale esclarecer a nomenclatura dehoniano. A Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos) nasceu em 1878, em Saint-Quentin, França, por obra de seu fundador, Padre Leão Dehon, então sacerdote da Diocese de Soissons, coadjutor da Paróquia de Saint-Quentin e diretor do Colégio São João. A congregação  assumiu inicialmente o nome de Oblatos do Sagrado Coração. Depois de difícil início e algum tempo suprimida pela Santa Sé, em 1884, renasceu com o nome oficial de Sacerdotes do Coração de Jesus.

Voltando ao casamento, Pedro Sousa diz que mesmo sem ter a experiência no matrimônio, dá um conselho ao casal: além de olharem um ao outro, ambos devem olhar na mesma direção. 

Após a comovente cerimônia, dirige-se à pia batismal e eu mais que depressa, saio dali e entro na outra porta lateral. Sophia, como toda criança, chora um pouco ao receber a água santa, aquietando-se logo.  

Batismo de Sophia

Todos saem e aguardam a saída dos noivos que, passados alguns minutos, são saudados com arroz e pétalas de flores. 
Sophia e sua mãe Ana



Na volta para casa, vejo o cortejo de carros seguindo o veículo dos noivos, todos buzinando pelas ruas de Canidelo.

Caminhando, fico a lembrar dos casamentos (religiosos ou civis) dos meus sobrinhos e dos batismos da sobrinha e afilhada Annamaria e do sobrinho-neto e afilhado João Pedro. Então, lanço um desejo para o universo:  

- Quem sabe não conseguimos reunir a família toda (vinda de vários cantos) em 2024 ou em 2025 nesse cantinho tão querido chamado Canidelo?



segunda-feira, 26 de junho de 2023

Informação correta é fundamental. Jornalista é imprescindível.

Jornalismo, Sempre 

Em 1984, fui a uma reunião da Comissão de Assessoria de Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo por convite de Wilson Baroncelli, que trabalhava no Grupo Pão de Açúcar como eu. Passei a frequentar as reuniões das quartas à noite e  fiz amizades sólidas e queridas. E foi embalada por essa lembrança que li sobre o V Congresso dos Jornalistas Portugueses que acontecerá no próximo ano em Lisboa e terá a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Souza em cerimônia de abertura. 

Fui em busca de informações sobre o encontro, cujo tema é “Jornalismo, Sempre” e que irá debater o exercício da profissão em condições dignas, seus desafios e oportunidades de melhoria. A Comissão Organizadora tem na presidência o jornalista e professor de jornalismo Pedro Coelho, que trabalha na SIC (cuja TV tem parceria com a Rede Globo). Ela reúne mais de 50 jornalistas de diferentes gerações, plataformas e professores de jornalismo. Pedro e os integrantes do grupo de trabalho Proximidade têm viajado o país para ouvir as angústias dos jornalistas em encontros nas várias regiões do continente, Madeira e Açores.  


Pedro Coelho no périplo em Açores

Então, nesse périplo, no sábado de 3 de junho no Porto, mais de 12 jornalistas dedicaram a tarde quente para se reunirem na Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto. E lá estava eu, para conhecer os jornalistas em uma casa que respira história. Afinal, são 141 anos reunindo centenas de escritores, jornalistas, atores e artistas plásticos. Ainda que o nome menciona homens de letras, apenas 16 anos após a sua fundação, em 1901, surge a primeira mulher, Clorinda de Macedo, professora e poetisa (ainda volto ao tema no futuro).

Edifício que abriga a
Associação dos Jornalistas
e Homens de Letras do Porto 


Foi curioso ouvir diferentes relatos que se assemelham ao momento vivido no Brasil. Será que o papel vai acabar? Será que as redações dos veículos, como conhecemos, estão fadadas à falência? E a tecnologia que traz consigo a Inteligência Artificial irá ocupar o lugar de pessoas que exercem o árduo ofício de questionar em busca da informação correta?  

Em certo momento, uma jovem dá um depoimento comovente, ao falar das dificuldades em ser jornalista e lutar por melhores condições profissionais. “Muitos colegas meus perguntam por que eu ainda frequento os encontros para debater os rumos do jornalismo”. 

Pedro Coelho então é enfático, respondendo que é preciso continuar a batalha e não desistir. Salários baixos, precariedade no exercício da profissão, legislação a ser atualizada. Esses são alguns dos desafios enfrentados por muitos jornalistas que atuam em veículos como o Diário de Notícias, criado em 1864, o mais antigo veículo a funcionar e que corre o risco de fechar (esperemos que isso não ocorra). 

Hoje em dia (e já há um bom tempo) esse é o panorama vivido por profissionais e veículos de imprensa em muitos países.

Debater, questionar e encontrar saídas para o jornalismo


Vale dizer que comprar jornais impressos aqui é um hábito que logo a gente adquire – como é bom ver pessoas consumindo notícias em papel! E tem ainda veículos exclusivamente criados online e plataformas de notícias, além das tevês e rádios. Escuto a M80 que traz boa música quando dirijo por aqui.

A escrita nos jornais é atraente, a crítica é contumaz e inteligente. Há semanários (O Gaiense retrata a vida em Vila Nova de Gaia onde moro). Há os especializados como o quinzenal Jornal de Letras que traz notícias do mundo da literatura e artes. 

Alguns jornais e revistas de Portugal

Tenho já meus preferidos. Assinei o Público (que tem uma parceria com a Folha de S.Paulo) e nos finais de semana, compro o Expresso com sua revista, que circula às sextas e cujo exemplar é guardado para mim por Cristina, da lojinha que vende revistas, bilhetes da Loteria e é também  posto do CTT (a estatal Correios e Telecomunicações de Portugal) no bairro. Semanalmente, quando chego, Cristina abre um sorriso e diz:

- Boa tarde, dona Lena, aqui está o Expresso. Ah, e serão lançadas biografias nas próximas semanas  com a revista Sábado (já pedi para guardar a de Winston Churchill!).  

A lojinha e posto CTT onde compro 
revistas e jornais  e ainda 
 envio cartões e cartas pelo correio

Em Portugal, segundo dados da ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social  - em dezembro de 2022 havia 1.710 publicações periódicas, 301 empresas jornalísticas e 181 serviços de programas distribuídos exclusivamente pela internet. 

A comunicação será ainda mais abordada em futuro post.  Afinal, esse é o mundo a que pertenço profissionalmente, que vivi no Brasil e que estou a conhecer em terras portuguesas.

Serviço:

V Congresso dos Jornalistas Portugueses: Jornalismo, Sempre.

Local:  Cinema São Jorge, em Lisboa

Data: 18 a 21 de janeiro de 2024

Painéis: Ética e Condições de Trabalho, Acesso à Profissão, Memória (comemorações dos 50 anos do 25 de Abril), Jornalismo de Proximidade, Financiamento do Jornalismo e Novas Fronteiras do Jornalismo. Haverá ainda mesas redondas (nomeadas por aqui como pontos de fuga), diversas dinâmicas, masterclasses. 

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Pets são da família

 Pets são da família 

Quando a gente muda, seguem conosco gatinhos, cachorros, passarinhos. Afinal, pets fazem parte da família. No meu caso, por vários motivos, tomei a difícil decisão de buscar outro lar para Merlin e Aquiles, gatos que me acompanharam nos últimos cinco anos e meio. Felizmente, Lurdeca, a amiga que doou ambos, os recebeu de volta. Somente depois que eles partiram, iniciei a preparação para vir para cá. Animais são sensíveis e percebem qualquer movimento para mudança. 

Talvez seja por sentir falta dos gatinhos ou de Spock, Golden Retriever de minha irmã Vera e integrante da família e que nos deixou em fevereiro do ano passado aos nove anos,  tenho observado com mais atenção os pets e sua relação com as pessoas.

Há aquelas abnegadas, como a vizinha de nosso andar, a dona Maria Augusta. Além dos dois gatinhos que tem, ainda cuida de mais sete que circulam pela rua. São alimentados duas vezes ao dia com comida feita por ela, que ainda cuida das casinhas protegidas contra chuva e frio abrigadas em um espaço verde - divisa com muros da  Escola Básica do Meiral  e em frente ao condomínio onde moramos. 


Dona Augusta 
e os gatinhos



Este está velhinho e durante o dia fica
na porta do condomínio

As casinhas arrumadas para os gatinhos. 

A Câmara de Vila Nova de Gaia (como chama-se a prefeitura aqui em Portugal) tem site com fotos e descritivo de cães e gatos para doação. E é preciso muito esforço, pois todo o ano são abandonados cerca de 10 mil animais. O abandono é crime e pode ser punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias. 

PATA, a plataforma de adoção
faz campanhas frequentes

Segundo matéria do site PIT – Pets in Town, abrigado na plataforma iOL, atualmente, o país tem cerca de 2,890 milhões de cães e 512 mil felinos. E como são obtidos esses números? Simples. O registro é obrigatório por lei para cães, gatos e furões nascidos em Portugal ou residentes no país há mais de 120 dias. No caso de cães, há oito tipos de categorias e seus donos precisam apresentar boletim sanitário, vacina de raiva e microchip instalado. Ao serem registrados no SIAC – Sistema de Informação de Animais de Companhia, é possível acompanhar a evolução de pets no país. 

Entre as categorias de cães, há os de serviço. Clara e Cristal, duas belas Golden Retriever brancas são cães de serviço e chamam a atenção por onde passam. Eu as conheci em um sábado com sol escaldante quando entrava no mercado Bolhão, no Porto (falarei mais sobre o lugar em futuro post).

Elas estavam com seus uniformes sinalizando serem cães de serviço e educadamente deitadas com suas guias seguras pelo dono, Ian Przewodowzki. Ian é brasileiro, neto de poloneses e morava no Rio de Janeiro antes de vir para o Porto – uma feliz coincidência comigo, brasileira,  neta de poloneses e com um caso de amor com o Rio desde que ali morei. 

Clara e Cristal chamam 
atenção por onde andam

Ian explica que tem uma deficiência auditiva e Clara é sua guia, enquanto Cristal auxilia como apoio emocional para a ansiedade de sua filha Ana Beatriz, de 25 anos. Comenta que eu gostaria de conhecer sua mulher, Ana Paula, também brasileira. Mais que depressa, a filha caçula Maria Antônia, de 8 anos, se oferece para chamar a mãe. Ana Paula chega e começamos a conversar descontraidamente. Conta que Clara e Cristal têm três anos e meio e que nasceram em Viseu, município do distrito do mesmo nome, onde mora seu pai que é português. Em seguida, ficaram três meses em treinamento nos Estados Unidos e depois foram residir com a família toda no Recreio dos Bandeirantes, bairro do Rio de Janeiro. O casal voltou com a filha caçula para Portugal em outubro de 2021. 

Ele ressalta que a lei portuguesa faculta ao dono de estabelecimento permitir ou não a entrada de cães de serviço, e muitos não permitem nem entrada nem permanência. Além disso, é proibida a permanência de cães de qualquer categoria em parques. Preconceito? Pode ser. Isso talvez explique o fato de tantos cães passearem com seus responsáveis nos passadiços próximos das praias. A convivência amigável com pets talvez ainda demore a mudar nessas terras portuguesas que estão recebendo muitos brasileiros e que chegam com seus cães e gatos. 

Na hora da foto, Clara sentiu o aroma dos petiscos frescos comprados ali por Ana Paula e não se sentava de jeito algum! Essa atitude lembrou-me o Spock tão querido nos momentos em que dava a patinha ao ouvir a gente falar: sit!... Após dicas sobre canis, e eu ter o telefone e e-mail anotados, nos despedimos, desejando mutuamente bons passeios. 

Então, quem sabe no próximo ano não acolheremos um pet?    

#pets #gaia #cãesdeserviço #pata #gatos #mudança 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

É dia da criança! Você já brincou hoje?

Ensino levado a sério: esse é o passaporte para o futuro

É dia da criança! Você já brincou hoje?

Desde que aqui cheguei, caminho diariamente pelas ruas da freguesia de Canidelo, que reúne vários bairros. É um jeito ótimo de conhecer os arredores e me familiarizar com a vida por aqui. Hoje (1/6), ao caminhar na rua do Meiral, rumo à rua Bélgica (que merece um texto futuro), passei pela escola básica do Meiral decorada com balões, saudando o dia da criança, celebrado aqui em 1º de junho. Uma tenda chamou a atenção, expondo à venda algumas peças. É da APEM - Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola do Meiral.




Ensino de qualidade deve ser prioridade em qualquer país. Em Portugal, esse é assunto sério para pais, professores e alunos – os clientes finais dessa cadeia produtiva, se assim podemos chamar. O ensino é dado em escolas básicas (nosso 1ºgrau) e em escolas secundárias – essas equivalentes ao ensino médio brasileiro. O sistema de ensino de Portugal  tem um índice de alfabetização (2021) de 96,9% e na educação, ocupa o 41º lugar no mundo, com cerca de 1,614 milhão de estudantes.  

"Aqui na escola do Meiral, temos 12 turmas, sendo 8 do ensino básico (do 1º ao 4º ano) e 4 no jardim da infância (dos três aos seis anos)", explica Eduardo Gomes, vice-presidente da APEM". Mensalmente encontram-se com os pais de alunos para levantar temas de interesse. Depois se reúnem com os docentes e o coordenador da escola e depois mandam o resultado do encontro no grupo do WhatsApp. 

E a conversa segue animada quando falamos das diferenças de significados de palavras nos dois países. No Brasil, por exemplo, costumamos comprar durex em papelarias. Não corra esse risco por aqui. Durex é preservativo!

Alexandre Silva (no centro da foto abaixo) é o presidente da Associação e termina seu mandato no final desse ano letivo. Inspetor do Ministério da Economia e com uma filha de seis anos na escola, explica que a venda dos itens ali expostos ajuda a criarem experiências para as crianças, como hoje – no dia da criança, em que decoraram a escola e colocaram brinquedos de inflar no pátio. “Na Associação, buscamos criar experiências para as crianças. Se não fizéssemos isso, por exemplo, o dia da Criança ia passar em branco”. 



Venda dos itens com logo da Apem ajudam a promover experiências 



Ele conta que todas as escolas em Portugal são inclusivas e os alunos com dificuldades têm terapia ocupacional e terapia da fala, conforme o caso. Nessa escola – assim como algumas de Portugal, além de portugueses, há alunos vindos da Inglaterra, da Ucrânia, do Brasil e de outros países. Alexandre destaca que os brasileiros mostram muita habilidade para diferentes idiomas e se adaptarem. Isso é verdade. 

Minhas sobrinhas-netas chegaram com os pais há três anos e meio. Os primeiros tempos na escola não foram fáceis. Precisavam entender o idioma falado e escrito e assimilar o sistema. Hoje, explicam de forma clara como tudo funciona e opinam sobre mudanças no ano letivo, além de terem colegas que se tornaram amigos. Em setembro, Marina irá para o 9º ano – o último do ensino básico – e sua irmã Catarina ingressará no 10º ano, o primeiro do ensino secundário – equivalente ao nosso 2º grau – e que é dividido em cursos científicos ou humanísticos.  Qualquer semelhança com os antigos Cientifico ou Clássico que tínhamos no Brasil é pura verdade! 

Agora, fica a curiosidade em saber como a Escola do Meiral vai celebrar o Halloween e o magusto, festa popular que acontece em algumas datas específicas e que é comemorada com grupos de amigos e famílias reunidos em volta de uma fogueira onde são assadas castanhas ou bolotas (frutos de carvalhos, existentes em sua maioria no norte e no centro do país), com direito a cantorias e conversas. Eu já dei uma pequena contribuição, comprando uma caneca térmica com a logomarca da APEM!


#educação #apem #ensinoemPortugal #ensinobásico #Canidelo #Halloween #magusto